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São Paulo — Shaun Flores tinha 11 anos quando um amigo o apresentou à pornografia. "Fiquei fisgado imediatamente", lembra ele, hoje com 30 anos. "Era tipo 'uau, o que é isso que as pessoas estão fazendo e parecem estar se divertindo muito?'" A curiosidade rapidamente se transformou em algo que ele não conseguia controlar. Ele assistia pornografia de manhã, à tarde e à noite. "Tornou-se tão comum quanto escovar os dentes."

Shaun não está sozinho. No Brasil, o Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo descobriu que, em média, os brasileiros começam a consumir pornografia aos 12 anos de idade. Uma pesquisa com 3.650 brasileiros revelou que eles assistem pornografia, em média, de duas a três vezes por semana.

Mas o que começa como curiosidade infantil frequentemente termina em um pesadelo psicológico. O vício em pornografia é um padrão persistente e recorrente de consumo, caracterizado por perda de controle sobre o comportamento, uso continuado apesar de consequências negativas, episódios recorrentes de craving (desejo intenso e urgente) e falhas repetidas nas tentativas de interromper o uso. E, como demonstram estudos recentes, ele não fica restrito ao "conteúdo comum".

A escalada: do convencional ao bizarro

O cérebro humano, diante da estimulação constante, desenvolve tolerância. O que antes provocava excitação deixa de ser suficiente. E é nesse ponto que a pornografia mainstream dá lugar ao extremo. A neurociência é clara: cenas pornográficas são gatilhos hiperestimulantes que levam a níveis anormalmente elevados de secreção de dopamina. Estudos de neuroimagem mostram que indivíduos com vício em pornografia apresentam atividade reduzida no córtex pré-frontal — a região do cérebro responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisões.

Em outras palavras: o cérebro do viciado em pornografia se torna menos capaz de dizer "não".

E é assim que consumidores de conteúdo "vanilla" — aquele considerado convencional ou suave — começam a buscar estímulos cada vez mais fortes. Primeiro, conteúdo mais explícito. Depois, categorias de nicho. E, para muitos, o passo seguinte é o abismo: as parafilias.

Parafilias são caracterizadas por fantasias sexuais, impulsos ou comportamentos recorrentes, intensamente excitantes e socialmente desviantes, que duram pelo menos seis meses. E entre as parafilias mais extremas estão a zoofilia (atração sexual por animais) e a escatologia — que abrange a coprofilia (excitação sexual por fezes) e a coprofagia (ingestão de fezes).

Zoofilia: quando o animal vira objeto sexual

A zoofilia é um Transtorno de Preferência Sexual caracterizado por fantasias, pensamentos e/ou práticas sexuais com animais. No Brasil, é considerada crime de maus-tratos contra animais, previsto na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), com pena de três meses a um ano ou multa — pena que foi aumentada pela Lei nº 14.064/2020.

Mas a lei não impede o fenômeno.

Estudos acadêmicos mostram que a zoofilia é um fenômeno predominantemente masculino, embora haja casos descritos no gênero feminino. Um estudo de caso publicado na European Psychiatry acompanhou um jovem de 18 anos cujo principal meio de excitação sexual era a masturbação e o contato sexual com ovelhas. O desvio se desenvolveu ao longo de dez anos antes da exposição de seus interesses zoofílicos. O diagnóstico indicou que o paciente sofria de psicopatologia significativa.

Mais alarmante ainda: comunidades digitais de zoófilos utilizam a internet para se conectar, marcar encontros sexuais e até trocar pornografia. Uma pesquisa publicada no European Psychiatry revelou que 26,6% dos zoófilos usam a internet para sexo casual, 17,7% para encontros e 17% para trocar pornografia.

E os casos não são raros no Brasil. Levantamentos na prática clínica médico-veterinária em Marília (SP) identificaram atendimentos de casos suspeitos de zoofilia, discutindo aspectos psicológicos e culturais do tema. Em 2024, a Justiça chegou a investigar a ex-participante de reality show Andressa Urach por suspeita de zoofilia.

A psiquiatra Renée Elizabeth, da Sociedade de Psiquiatria de Mato Grosso, destaca que a zoofilia aparece em toda a linha histórica da humanidade, mas o que chama atenção na era digital é o exibicionismo. O que antes era um segredo obscuro agora é compartilhado, celebrado e consumido em massa.

Escatologia e coprofilia: quando o "nojento" vira fetiche

Se a zoofilia já é chocante, a escatologia leva o conceito de "tabu" a outro nível.

A coprofilia — também chamada de scatophilia ou simplesmente scat — é a parafilia que envolve excitação sexual e prazer a partir de fezes. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) classifica a coprofilia sob a categoria 302.89 — Parafilia Sem Outra Especificação. O diagnóstico é feito quando o comportamento, os impulsos ou as fantasias sexuais causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em áreas importantes do funcionamento social ou ocupacional.

A coprofagia — a ingestão de fezes — é uma parafilia distinta, igualmente classificada como um transtorno parafílico especificado.

E o que leva uma pessoa a desenvolver esse tipo de fetiche?

Especialistas apontam para uma combinação de fatores: dessensibilização progressiva (o cérebro precisa de estímulos cada vez mais intensos), traumas infantis não resolvidos, transtornos de personalidade e, em muitos casos, comorbidades psiquiátricas.

Um estudo de caso sobre "escatologia telefônica" — uma parafilia caracterizada por fazer chamadas obscenas para obter excitação sexual — documentou um paciente com diagnóstico de transtorno do espectro da esquizofrenia não especificado, transtorno obsessivo-compulsivo com baixa percepção de insight, epilepsia e retardo mental limítrofe. A parafilia, neste caso, era apenas um sintoma de um quadro psiquiátrico muito mais amplo.

"2 Girls 1 Cup": a piada internacional que envergonha o Brasil

Nenhuma discussão sobre escatologia na era digital estaria completa sem mencionar o vídeo que colocou o Brasil no mapa da bizarrices internacionais: "2 Girls 1 Cup" .

Lançado em 2007, o vídeo é o trailer não oficial de Hungry Bitches, um filme pornográfico de fetiche escatológico brasileiro produzido pela MFX Media. A produção é 100% brasileira — filmada no interior de São Paulo por Marco Antônio Fiorito, um diretor e produtor de filmes fetichistas nascido na região. No trailer, duas mulheres, Karla e Latifa, defecam em um copo, aparentemente consomem o conteúdo e vomitam na boca uma da outra.

O vídeo se tornou um dos maiores shock videos da história da internet. Mas o que realmente o impulsionou ao estrelato foram os vídeos de reação — pessoas filmando amigos, familiares e colegas enquanto assistiam ao conteúdo pela primeira vez, em expressões de puro horror.

O próprio Fiorito, que se descreve como um "fetichista compulsivo", começou sua carreira produzindo vídeos caseiros de podofilia (fetiche por pés) com sua então esposa. Eles anunciavam em jornais locais para vender fitas VHS. Com o tempo, o negócio cresceu, e eles contrataram mais atores.

Em 1999, com o boom da pornografia na internet, um empresário se aproximou de Fiorito. O resto é história — uma história que, para o Brasil, é profundamente constrangedora.

Quando o vídeo viralizou, o mundo associou a imagem do país não ao futebol, ao samba ou à bossa nova, mas a duas mulheres e um copo. Até hoje, "2 Girls 1 Cup" é mencionada em fóruns internacionais como sinônimo de choque, nojo e degeneração. O Brasil se tornou, involuntariamente, a pátria do scat.

Fiorito, em um processo criminal, argumentou sem sucesso que o excremento era, na verdade, sorvete de chocolate. O tribunal não se convenceu.

A indústria do dinheiro fácil: OnlyFans e a exploração da vulnerabilidade

Se a pornografia tradicional já era um campo minado, o surgimento de plataformas como o OnlyFans criou uma nova armadilha: a ilusão do dinheiro fácil.

Na Espanha, 30% dos jovens acreditam que se ganha muito dinheiro no OnlyFans. É um mito que ignora a realidade: apenas 1% dos criadores mais populares ficam com um terço de toda a renda da plataforma. A maioria esmagadora ganha valores irrisórios.

"O trabalho feminino é denegrido e desprezado em todos os setores. Se as mulheres conseguem fazer isso, a lógica diz que deve ser fácil", observa uma criadora de conteúdo.

Algoritmos de redes sociais como Instagram e TikTok estão criando um caminho perigoso que leva jovens — especialmente adolescentes — à autoexploração sexual. Os adolescentes podem querer participar como uma maneira 'fácil' de ganhar dinheiro. Mas o que parece uma oportunidade é, na verdade, uma armadilha.

Criadores de conteúdo revelam rotinas de 90 horas semanais, equipes próprias e pressão constante para manter a imagem perfeita. E quando decidem parar, enfrentam assédio e preconceito. A vida depois do OnlyFans é marcada pelo estigma.

No Brasil, o fenômeno é igualmente preocupante. O Instituto Datafolha realizou pesquisa de opinião pública em 220 municípios sobre percepções e atitudes em relação ao OnlyFans. Os resultados, ainda não totalmente divulgados, já indicam uma tendência alarmante: jovens cada vez mais jovens estão considerando a plataforma como uma opção de carreira viável.

O preço psicológico: ansiedade, depressão e distorção da realidade

O consumo excessivo de pornografia não afeta apenas o cérebro — afeta a alma.

Estudos mostram que a exposição frequente a conteúdos pornográficos está associada ao aumento da ansiedade, depressão e distorções na percepção da realidade. Pesquisas descobriram que taxas mais altas de uso de pornografia estão associadas a níveis de depressão entre homens.

O vício em pornografia pode levar à diminuição do interesse pela intimidade sexual e emocional na vida real, causando tensão nos relacionamentos românticos. A exposição constante a imagens irreais do corpo e do sexo cria expectativas que a realidade não consegue corresponder, gerando frustração, inadequação e isolamento.

Paula Hall, psicoterapeuta sexual e de relacionamento que atua em Londres, é especializada em ajudar pessoas afetadas pelo vício em sexo e pornografia. "O número de clientes que procuram ajuda com problemas de pornografia no The Laurel Center duplicou nos últimos anos", disse ela à BBC. "Há dez anos, a maioria dos nossos clientes eram homens casados, na faixa dos 40 e 50 anos. Mas cada vez mais, nossos clientes estão na faixa dos 20 e 30 anos, muitos dos quais são solteiros, e reconhecem o impacto crescente do uso de pornografia em suas vidas e em sua capacidade de obter ou manter um relacionamento".

No Brasil, o problema é igualmente grave. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) registraram 400,3 mil atendimentos a pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias em 2021 — e especialistas acreditam que os casos relacionados ao vício em pornografia, embora não contabilizados separadamente, representam uma parcela significativa e crescente desse total.

Por que tantas mulheres estão entrando nesse universo?

Uma das perguntas mais intrigantes — e menos respondidas — é: por que tantas mulheres estão produzindo e consumindo pornografia extrema?

A resposta é complexa e multifacetada.

Em primeiro lugar, há o fator econômico. Em um mercado de trabalho que ainda paga menos às mulheres, a pornografia — especialmente em plataformas como OnlyFans — aparece como uma alternativa "acessível". "Se as mulheres conseguem fazer isso, a lógica diz que deve ser fácil", ironizou uma criadora. A ilusão do dinheiro fácil é particularmente atraente para jovens que enfrentam dificuldades financeiras.

Em segundo lugar, há o fator psicológico. Muitas mulheres que entram na indústria pornográfica têm históricos de abuso sexual, trauma e baixa autoestima. A pornografia se torna uma forma de reviver o trauma em um ambiente controlado, ou de buscar validação através da objetificação.

Em terceiro lugar, há o fator cultural. A cultura brasileira contribui com a hipersexualização de mulheres a ponto de elas mesmas assumirem a condição de objetos sexuais. As mulheres na pornografia estão sempre reproduzindo estereótipos de feminilidade e submissão frente ao fetiche.

Estudos mostram que a insatisfação com a imagem corporal é uma problemática frequente entre as mulheres, com impactos relevantes na autoestima, saúde mental e vivência da sexualidade. Com o aumento do consumo de pornografia online por mulheres jovens, torna-se fundamental compreender o impacto desta exposição na percepção corporal e na saúde sexual feminina.

Mas há também uma dimensão de empoderamento distorcido. Algumas mulheres veem a produção de conteúdo pornográfico como uma forma de tomar controle sobre sua própria sexualidade em uma indústria historicamente dominada por homens. No entanto, essa "libertação" muitas vezes esconde uma nova forma de exploração — agora disfarçada de "escolha".

O tratamento: há esperança?

O tratamento do vício em pornografia e das parafilias é desafiador, mas possível.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece o Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo na CID-11, reforçando que se trata de uma condição de saúde mental associada a processos de desregulação do controle comportamental e da motivação.

O tratamento recomendado combina psicoterapia e medicação. Para casos leves, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem se mostrado eficaz. Para casos mais graves, combina-se a psicoterapia com medicamentos, como antidepressivos inibidores de serotonina, a longo prazo.

O tratamento deve agir tanto na inibição ou diminuição da compulsividade sexual e recorrência do comportamento parafílico, como na criação de novas formas de lidar com os impulsos.

Para pessoas com parafilias como zoofilia, a terapia psicológica é fundamental. Um terapeuta pode ajudar a explorar as raízes desses impulsos, trabalhar na gestão de emoções e desenvolver estratégias para redirecionar o comportamento. No entanto, muitos pacientes com parafilias enfrentam reações negativas de seus terapeutas — incluindo falta de conhecimento, risos e pressão — quando decidem revelar suas experiências.

Paula Hall observa que, no Reino Unido, "os nossos pedidos de formação adicional por parte dos profissionais de saúde" também aumentaram. Isso sugere que mesmo os profissionais estão percebendo a gravidade do problema e buscando se capacitar para lidar com ele.

No Brasil, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços públicos de saúde mental que acolhem pessoas em intenso sofrimento psíquico. No entanto, a demanda por tratamento específico para vício em pornografia e parafilias ainda é incipiente e mal compreendida.

A prevenção: o que os pais e educadores podem fazer?

A prevenção começa com a educação digital. Adolescentes que já enfrentam problemas de saúde ou quadro de adoecimento mental são ainda mais sensíveis aos riscos online.

Pesquisas mostram que 16% das crianças e adolescentes brasileiros de 11 a 17 anos já receberam conteúdo sexual na internet. O percentual é ainda maior entre adolescentes de 15 a 17 anos: 27%. Além disso, 9% dos usuários de internet de 11 a 17 anos afirmaram que outras pessoas pediram fotos ou vídeos sem roupa.

A idade média de início do consumo de pornografia no Brasil é de 12 anos. Isso significa que crianças estão sendo expostas a conteúdo sexual explícito antes mesmo de terem maturidade emocional para processá-lo.

Especialistas recomendam:

  1. Diálogo aberto: Conversar com crianças e adolescentes sobre sexualidade e segurança online, sem tabus.

  2. Controle parental: Utilizar ferramentas de filtragem de conteúdo e monitoramento do uso da internet.

  3. Educação sexual: Oferecer educação sexual baseada em evidências, que inclua discussões sobre consentimento, respeito e os perigos da pornografia.

  4. Identificação precoce: Estar atento a sinais de vício — isolamento social, queda no desempenho escolar, mudanças de humor, comportamento sexual inadequado.

  5. Busca de ajuda profissional: Procurar psicólogos e psiquiatras especializados em dependência comportamental e sexualidade.

Conclusão: o silêncio que alimenta o abismo

A pornografia, em sua forma mais extrema, não é apenas um vício — é uma doença social. Ela corrói a capacidade de intimidade, distorce a percepção da realidade, normaliza a violência e a degradação, e transforma seres humanos em objetos de consumo.

O Brasil, infelizmente, ocupa um lugar de destaque nesse cenário sombrio. Não apenas como o país que deu ao mundo "2 Girls 1 Cup", mas como uma nação onde milhões de jovens estão sendo consumidos pelo consumo de pornografia antes mesmo de completarem 18 anos.

A zoofilia, a coprofilia, a escatologia — todas essas parafilias extremas — são o ponto final de uma jornada de dessensibilização. O cérebro que precisa de estímulos cada vez mais fortes para sentir prazer é um cérebro doente. E a sociedade que normaliza esse processo é uma sociedade em decadência.

Mas há esperança. O tratamento existe. A prevenção é possível. E o primeiro passo é quebrar o silêncio.

Pais, educadores, profissionais de saúde e, acima de tudo, os próprios jovens precisam falar sobre isso. Precisam reconhecer que o consumo excessivo de pornografia não é "normal" — é um sintoma de algo profundamente errado. Precisam buscar ajuda sem vergonha. Precisam entender que o prazer não deve vir acompanhado de degradação, e que a intimidade real vale muito mais do que qualquer fantasia digital.

Enquanto isso, o Brasil continua sendo lembrado internacionalmente não pelo que tem de melhor, mas pelo que tem de pior. E essa é uma piada que já deixou de ter graça há muito tempo.

Esta reportagem foi produzida com base em estudos acadêmicos, dados do Instituto de Psiquiatria da USP, pesquisas da BBC, da Vice e do G1, além de artigos científicos publicados no PubMed, European Psychiatry, Journal of the American Psychiatric Nurses Association e outras fontes especializadas.