O sonho que virou pesadelo
Era uma tarde como qualquer outra quando Eliudson de Lima Silva, morador de Goiânia, viu um vídeo no Instagram. Virginia Fonseca, a influenciadora que ele admirava, aparecia sorrindo, falando sobre como as apostas online poderiam ser o caminho para uma vida financeiramente bem-sucedida. A mensagem era clara: dinheiro fácil, multiplicação de renda, um futuro próspero.
Eliudson acreditou. Ele investiu cerca de R$ 56 mil — o dinheiro que havia guardado para comprar a casa própria. Perdeu tudo. Para tentar recuperar o prejuízo, contraiu empréstimos. A dívida cresceu, a saúde piorou, o sonho da casa própria desabou.
Eliudson é apenas um nome entre milhares. A história dele se repete Brasil afora: pessoas que, seduzidas por influenciadores e promessas de enriquecimento rápido, entregaram suas economias às plataformas de apostas e viram o dinheiro desaparecer.
No centro dessa teia está Virginia Fonseca — a influenciadora que construiu um império bilionário enquanto milhares de seguidores perdiam tudo.
O Império Financeiro: R$ 1,3 bilhão em faturamento
Os números são estarrecedores. Durante seu depoimento na CPI das Bets, no Senado, Virginia revelou que uma de suas empresas, a WePink, faturou cerca de R750milho~es∗∗emapenasumano[reference:4].Ovalorequivaleaumganhomeˊdiodeaproximadamente∗∗R750milho~es∗∗emapenasumano[reference:4].Ovalorequivaleaumganhomeˊdiodeaproximadamente∗∗R 1.426 por minuto ao longo de 12 meses — praticamente um salário mínimo por minuto.
Mas o império vai além. Em 2022, a WePink faturou R168milho~es.Em2024,pulouparaR168milho~es.Em2024,pulouparaR 750 milhões. Em 2025, todo o conglomerado da influenciadora — cosméticos, suplementos, mais de 250 quiosques, linha infantil e agência de influenciadores — bateu a marca de R$ 1,3 bilhão em faturamento.
O estilo de vida luxuoso acompanha os números. Virginia adquiriu um jatinho particular modelo Cessna Citation Sovereign, avaliado entre R23milho~eseR23milho~eseR 29 milhões. Em uma única live promocional de 13 horas e meia, ela movimentou R22milho~es∗∗emvendas[reference:9].Emtre^stransmisso~escomerciaisem2023,faturouquase∗∗R22milho~es∗∗emvendas[reference:9].Emtre^stransmisso~escomerciaisem2023,faturouquase∗∗R 60 milhões.
A pergunta que não quer calar: de onde veio tanto dinheiro?
A "Cláusula da Desgraça Alheia"
A resposta pode estar em um contrato revelado pela revista Piauí. Segundo a investigação do jornalista João Batista, Virginia tinha um contrato com a Esportes da Sorte que previa um adiantamento de R$ 50 milhões e, mais chocante, 30% de tudo o que os seguidores dela perdessem nas apostas.
O mecanismo ficou conhecido como "cachê da desgraça alheia". Quanto mais os seguidores perdiam, mais a influenciadora ganhava. Era um incentivo perverso: o sucesso financeiro dela estava diretamente atrelado à ruína financeira de quem a seguia.
Virginia foi à CPI das Bets em maio de 2025 e negou ter lucrado com as perdas dos seguidores. Disse que o contrato previa apenas um valor fixo e que a cláusula dos 30% nunca foi ativada. "Nunca recebi 1 real a mais do que o contrato de publicidade que fiz por dezoito meses", declarou.
Mas as investigações contam uma história diferente.
A CPI das Bets e o Habeas Corpus do STF
Virginia foi convocada pela CPI das Bets para explicar sua atuação na divulgação de apostas online. A comissão, criada em novembro de 2024, investigava como influenciadores estariam incentivando o público a participar de jogos de azar.
Ela compareceu ao Senado acompanhada do então marido Zé Felipe e do advogado criminalista Michel Saliba. Mas havia um detalhe crucial: Virginia obteve um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe garantia o direito de não responder perguntas que pudessem incriminá-la.
Na prática, a influenciadora pôde escolher o que dizer e o que calar.
O relatório final da CPI, elaborado pela relatora senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), sugeria o indiciamento de 16 pessoas, incluindo Virginia, por publicidade enganosa. Mas o relatório foi rejeitado pelo Senado em junho de 2025.
Virginia escapou do indiciamento político. Mas não escapou da Justiça.
A Investigação da Polícia Federal e os Relatórios do Coaf
Apesar do desfecho da CPI, as informações financeiras analisadas durante as investigações continuaram chamando a atenção das autoridades. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram movimentações consideradas atípicas em contas ligadas à influenciadora e a empresas associadas a ela.
Virginia passou a ser investigada pela Polícia Federal. A apuração mira a legalidade das operações financeiras, a origem dos recursos e a eventual prática de crimes financeiros, fiscais e de lavagem de dinheiro.
Um dos relatórios do Coaf trata da Talismã Digital, empresa de Virginia e Zé Felipe voltada a mídias digitais. Entre março e setembro de 2024, a companhia recebeu R22,4milho~es∗∗—sendo∗∗R22,4milho~es∗∗—sendo∗∗R 17,7 milhões transferidos pela AMP Pay Marketing e Negócios em cinco remessas via Pix.
O problema? O Santander comunicou o Coaf porque a AMP Pay está registrada no Simples Nacional, regime voltado a negócios com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. O banco também apontou que a AMP Pay aparentava não ter "capacidade financeira" para movimentar o valor e estava localizada em um box comercial em Itajaí, Santa Catarina.
Outro relatório menciona a Wpink Suplementos Nutricionais. Entre janeiro e março de 2025, a empresa registrou R43,6milho~esemcreˊditoseR43,6milho~esemcreˊditoseR 43,5 milhões em débitos. O Mercado Pago comunicou o Coaf por considerar que o volume não condizia com o faturamento mensal documentado. O Itaú também alertou sobre a Savi Cosméticos S.A., razão social da WePink, com 190 transações entre novembro de 2023 e maio de 2024.
Os Processos Judiciais: Vítimas em Busca de Justiça
Enquanto as investigações avançam, as vítimas recorrem à Justiça. Os processos se multiplicam:
O caso de Eliudson de Lima Silva (R$ 56 mil)
Eliudson moveu uma ação contra Virginia Fonseca, Adriane Galisteu e a Betano. Ele alega ter perdido cerca de R56mil∗∗apoˊsserinduzidopelascampanhaspublicitaˊrias[reference:47][reference:48].Aac\ca~oacusaasinfluenciadorasde∗∗propagandaabusivaeenganosa∗∗,porassociaremsuasimagensaˋideiadeenriquecimentoraˊpidoevidafinanceirabem−sucedida[reference:49][reference:50].Oprocessopedeaproximadamente∗∗R56mil∗∗apoˊsserinduzidopelascampanhaspublicitaˊrias[reference:47][reference:48].Aac\ca~oacusaasinfluenciadorasde∗∗propagandaabusivaeenganosa∗∗,porassociaremsuasimagensaˋideiadeenriquecimentoraˊpidoevidafinanceirabem−sucedida[reference:49][reference:50].Oprocessopedeaproximadamente∗∗R 324 mil entre indenizações e honorários.
O caso do homem de Goiânia (R$ 560 mil)
A Justiça aceitou uma ação movida por um homem de Goiânia contra Virginia Fonseca, Deolane Bezerra e Carlinhos Maia. O autor alega ter sofrido um prejuízo de R560mil∗∗[reference:53].Segundooprocesso,osinfluenciadoresteriamcontribuıˊdoparaovıˊcioearuıˊnafinanceiradohomemaodivulgaremossitesdeapostasdemaneira"veladaeenganosa"[reference:54].Elepedeaexclusa~odetodasaspublicac\co~espromocionais,umaindenizac\ca~ode∗∗R560mil∗∗[reference:53].Segundooprocesso,osinfluenciadoresteriamcontribuıˊdoparaovıˊcioearuıˊnafinanceiradohomemaodivulgaremossitesdeapostasdemaneira"veladaeenganosa"[reference:54].Elepedeaexclusa~odetodasaspublicac\co~espromocionais,umaindenizac\ca~ode∗∗R 20 mil por danos morais e a restituição do valor perdido.
A ação do Ministério Público (R$ 120 milhões)
O caso mais grave veio do Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios (MPDFT). Em 9 de julho de 2026, o MP ingressou com uma ação civil pública contra Virginia Fonseca e a casa de apostas Blaze, pedindo uma indenização de, no mínimo, R$ 120 milhões por danos morais coletivos.
Na ação, o promotor de Justiça Paulo Roberto Binicheski sustenta que Virginia atuaria como o "braço operacional da captação" da plataforma de apostas. Ele afirma que "ao recomendar produtos e serviços, os influenciadores induzem o público a adotar comportamentos alinhados ao estilo de vida que promovem".
Além da indenização, o MP pede a remoção imediata das publicações de Virginia relacionadas às apostas que prometam ganhos irreais ou induzam consumidores ao erro.
O Preço da Publicidade: Vidas Arruinadas
Por trás dos números e dos processos, há histórias reais de pessoas que perderam tudo.
No Reclame Aqui, dezenas de consumidores relatam ter sido enganados por propagandas que usavam a imagem de Virginia. Uma reclamação de abril de 2024 descreve um golpe em que a vítima fez três Pix totalizando mais de R$ 150 para um "projeto" promovido com o nome da influenciadora, sem nunca receber o retorno prometido. Outra relata ter visto um vídeo em que Virginia prometia "Pix de mil" e, ao clicar no link, caiu em um esquema fraudulento.
"Slotpix no qual consta a propaganda da Virgínia Fonseca é uma [golpe]. Você realiza seu ganho, mas na hora de ter o saque eles informam [problemas]", descreve uma vítima.
A própria Virginia admitiu, durante a CPI, que não tem como ajudar os seguidores que pedem socorro. "Não me arrependo dos anúncios que fiz", declarou.
O que diz a Lei
O Código de Defesa do Consumidor estabelece regras específicas para publicidade. Especialistas afirmam que influenciadores e celebridades podem responder judicialmente caso fique comprovado que participaram de campanhas consideradas enganosas, abusivas ou que omitiram riscos relevantes ao público.
A publicidade de jogos de azar no Brasil é um terreno minado. Embora as apostas esportivas tenham sido legalizadas pela Lei nº 13.756/2018, a publicidade desses serviços deve seguir regras rígidas de transparência e proteção ao consumidor.
Conclusão: O Império sob Ataque
Virginia Fonseca construiu um império bilionário. Mas as fundações desse império estão sendo questionadas — pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelas vítimas que perderam suas economias.
A influenciadora que acumulou R1,3bilha~o∗∗emfaturamento[reference:67],quecomprouumjatinhode∗∗R1,3bilha~o∗∗emfaturamento[reference:67],quecomprouumjatinhode∗∗R 23 milhões, que faturou R$ 22 milhões em uma única live, agora enfrenta investigações que podem destruir tudo o que construiu.
A Justiça ainda vai decidir se Virginia Fonseca é uma empreendedora de sucesso ou a face mais visível de um esquema que enriqueceu às custas da ruína de milhares de brasileiros.
Enquanto isso, Eliudson e tantos outros continuam esperando — não o dinheiro de volta, mas um mínimo de justiça.
Esta reportagem foi produzida com base em documentos públicos, relatórios do Coaf, depoimentos na CPI das Bets, processos judiciais e reportagens da revista Piauí, G1, Correio 24 Horas, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, Diário do Litoral e outras fontes citadas ao longo do texto.
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