A pergunta que ecoa nas ruas, nos lares e nos ambientes de trabalho é simples: por que ninguém faz nada? Ou, mais precisamente, por que se faz tão pouco diante de um fenômeno que afeta milhões de brasileiros?
As autoridades, frequentemente, apresentam números, estatísticas e relatórios. Criam-se grupos de trabalho, promovem-se seminários e anunciam-se operações espetaculares. Contudo, para o cidadão comum, vítima direta dessas práticas criminosas, permanece a sensação amarga de abandono e impotência.
O aparato estatal, concebido para proteger o indivíduo e garantir a ordem jurídica, parece mover-se com lentidão incompatível com a velocidade dos criminosos. Enquanto os golpistas utilizam inteligência artificial, redes internacionais e mecanismos tecnológicos avançados, muitas estruturas públicas permanecem presas a processos burocráticos que remontam a outra era.
Não se trata apenas de deficiência operacional. Há também uma preocupante dispersão de responsabilidades. As empresas de tecnologia apontam para os bancos. Os bancos apontam para os provedores de internet. Os provedores apontam para os órgãos reguladores. Os órgãos reguladores apontam para o Poder Legislativo. E, ao final dessa longa cadeia de justificativas, a vítima continua sem resposta e sem ressarcimento.
O problema agrava-se quando a impunidade passa a ser percebida como regra. A certeza da punição, mais do que a severidade da pena, sempre foi considerada elemento fundamental para a prevenção do crime. Entretanto, quando os autores das fraudes acreditam que dificilmente serão identificados ou responsabilizados, cria-se um ambiente fértil para a proliferação dessas práticas.
Também merece reflexão o papel dos governos. Não raro, os discursos oficiais destacam investimentos em tecnologia e segurança digital. Porém, a realidade enfrentada pelos cidadãos revela um descompasso entre a retórica institucional e os resultados efetivamente alcançados.
É impossível ignorar que os prejuízos causados pelos golpes ultrapassam a esfera financeira. São destruídas economias construídas ao longo de décadas. São abaladas relações familiares. São comprometidos projetos de vida. Em muitos casos, perde-se não apenas dinheiro, mas a própria confiança na sociedade e nas instituições.
A omissão, quando prolongada, converte-se em cumplicidade indireta com o problema. Não porque haja intenção deliberada de favorecer criminosos, mas porque a ausência de respostas eficazes produz efeitos equivalentes para aqueles que sofrem as consequências.
O Brasil necessita de uma estratégia nacional integrada, capaz de unir forças policiais, sistema financeiro, empresas de tecnologia e órgãos reguladores em torno de objetivos concretos e mensuráveis. É preciso agir com a mesma velocidade e determinação daqueles que exploram as fragilidades do sistema.
Uma sociedade que normaliza a fraude cotidiana corre o risco de banalizar a própria erosão da confiança pública. E sem confiança não há prosperidade, não há segurança jurídica e não há verdadeiro desenvolvimento.
O combate aos golpes não deve ser tratado como pauta secundária ou estatística de rodapé. Trata-se de uma questão de cidadania, de proteção patrimonial e de respeito ao contribuinte que sustenta o funcionamento do Estado.
Enquanto as respostas permanecerem insuficientes e fragmentadas, continuará pairando sobre a República a inquietante sensação de que os criminosos evoluem mais rapidamente do que aqueles encarregados de combatê-los.
E essa, sem dúvida, é uma realidade que nenhuma nação séria deveria aceitar com resignação.