Investigação da PF mira Virginia Fonseca por lavagem de dinheiro e suposta ligação com o PCC
A influenciadora digital e empresária Virginia Fonseca, uma das personalidades mais seguidas do Brasil com mais de 111 milhões de seguidores no Instagram, está no centro de uma investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, crimes fiscais e uma possível conexão com o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do país.

O inquérito, instaurado a partir de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), analisa movimentações financeiras consideradas atípicas em contas bancárias ligadas à influenciadora e a suas empresas. Segundo apuração da revista piauí, que trouxe a público os detalhes do caso, a possível "prática de crimes financeiros, fiscais e de lavagem de dinheiro" levou a PF a analisar com lupa as transações da empresária de 27 anos.
Transações milionárias em PIX acendem alerta no Coaf
Um dos pontos que mais chamaram a atenção das autoridades foi o volume de recursos transferidos para a Talismã Digital, uma das empresas de Virginia. De acordo com relatório do Coaf ao qual a imprensa teve acesso, a influenciadora recebeu, entre março e setembro de 2024, R$ 22 milhões em movimentações consideradas suspeitas. O dinheiro foi enviado em diversas remessas via PIX para a empresa da influenciadora.
O remetente dos recursos, a AMP Pay Marketing e Negócios, está enquadrado no Simples Nacional — regime tributário cujo faturamento máximo anual é de R$ 5 milhões. A quantia enviada à empresa de Virginia é quatro vezes superior a esse limite, o que acendeu o alerta dos órgãos de fiscalização.
A conta de uma empresa de Virginia em sociedade com o cantor Zé Felipe, seu então marido, chegou a receber R22,4milho~es∗∗,sendo∗∗R22,4milho~es∗∗,sendo∗∗R 21,4 milhões em mais de 40 transações via PIX. A reportagem da piauí destaca que os valores foram depositados por uma firma localizada em um box alugado no interior de Santa Catarina, cujo tamanho não condiz com tamanha movimentação financeira.
A mesma situação foi identificada na WePink, empresa de suplementos nutricionais da influenciadora — "o montante não condiz com o faturamento mensal documentado pela empresa", afirma a matéria.
A conexão com a "Japa do PCC"
O elemento mais sensível da investigação envolve a origem societária da WePink, marca de cosméticos de Virginia que faturou cerca de R$ 1,3 bilhão em 2025. A reportagem da piauí aponta que a WePink tem raízes em um negócio anterior: a Pink Lash, rede de estética fundada em 2017, em São Paulo, pelo casal Samara Martins e Thiago Stabile — hoje sócios de Virginia.
O que colocou a influenciadora na mira das autoridades foi o fato de que, na época da Pink Lash, o casal tinha como sócia Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida publicamente como "Japa do PCC". Karen é viúva de Wagner Ferreira da Silva, apelidado "Cabelo Duro", apontado pelas autoridades como liderança do PCC na Baixada Santista, executado em 2018.
Em entrevista à revista piauí, Karen Mori confirmou ter investido R$ 800 mil na abertura da primeira unidade da Pink Lash. Questionada sobre a origem do dinheiro, afirmou que o valor teria vindo da venda de um carro pertencente ao marido à época. Em outra ocasião, Mori atestou que o capital inicial da Pink Lash veio do "dinheiro de uma liderança da maior facção criminosa do Brasil".
Segundo a publicação, Mori teve participação ativa na operação da Pink Lash nos primeiros anos do negócio. A sociedade foi encerrada quando Samara e Thiago romperam com Karen e se associaram a Virginia Fonseca e ao empresário chinês Chaopeng Tan para fundar a WePink.
Uma fotografia publicada pela imprensa mostra Karen Mori, Virginia Fonseca e Samara Martins juntas, evidenciando a proximidade no período de transição dos negócios.
Karen Mori presa com R$ 1 milhão em espécie
Karen Mori foi presa em fevereiro de 2024, durante o cumprimento da Operação Verão. Na ocasião, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão em sua residência, onde foram encontradas duas malas contendo cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo. Ela é investigada pelo crime de lavagem de dinheiro em benefício da facção criminosa e é apontada como uma das principais responsáveis pelos fluxos de desvio de recursos.
O relatório da investigação aponta ainda que uma das empresas de Mori, que seria usada para lavagem de dinheiro, atua desde 2023 no mesmo prédio onde funciona a holding de Virginia Fonseca, cujo capital social gira em torno de R$ 50 milhões e que é dona dos aviões da influenciadora.
Outras frentes de investigação
Além das suspeitas de lavagem de dinheiro e ligação com o PCC, Virginia também enfrenta investigação sobre promoção ilegal de jogos de azar. A influenciadora foi convocada pela CPI das Bets em 2024 para prestar esclarecimentos sobre publicidade de casas de apostas. Embora o Senado tenha rejeitado o indiciamento proposto no relatório final da comissão, os dados de inteligência financeira produzidos pelo Coaf foram encaminhados à PF, que decidiu instaurar o inquérito.
Outro ponto crítico envolve irregularidades operacionais. O galpão da empresa de cosméticos de Virginia em Anápolis (GO) foi interditado pela Vigilância Sanitária por falta de autorizações, além de ter sido alvo de críticas de clientes que alegaram problemas com compras.
No âmbito pessoal, após a separação do cantor Zé Felipe, houve disputas judiciais sobre divisão patrimonial. Ele solicitou bloqueio parcial dos bens, alegando desconfiança quanto às posses declaradas por Virginia.
O que diz a defesa
Procurada pela revista piauí, Virginia Fonseca afirmou que conheceu Karen Mori em eventos ligados à Pink Lash, mas declarou que "não associa pessoas a possíveis envolvimentos de terceiros apenas por relações comerciais ou convivência". A influenciadora disse confiar nos sócios e que nunca teve motivos para suspeitar deles.
Em nota ao Domingo Espetacular, da Record, a equipe de Virginia afirmou que a WePink se consolidou de forma legal e que todas as operações foram relatadas aos órgãos de controle. Advogados que representam a influenciadora negaram irregularidades.
Até o momento, não houve indiciamento formal contra a influenciadora. A Polícia Federal aguarda a conclusão das diligências para identificar se há elementos suficientes para a abertura de um processo criminal. O caso segue em sigilo de Justiça.