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Senhoras e senhores,

Entre os inúmeros desafios que se apresentam à sociedade brasileira neste limiar de século, poucos são tão graves, tão insidiosos e tão perigosos quanto aquele que avança sem alarde pelos corredores das escolas, pelos lares e pelos espaços de convivência social: o progressivo afastamento de nossas crianças e de nossos jovens do universo da leitura.

Não se trata de mera estatística educacional. Não se trata de um indicador burocrático destinado a preencher relatórios ministeriais ou alimentar debates acadêmicos. Trata-se, isto sim, de uma questão civilizatória.

Assiste-se, com crescente preocupação, ao surgimento de uma geração permanentemente conectada, porém insuficientemente preparada para compreender a complexidade do mundo que a cerca. Uma geração cercada por informações, mas frequentemente privada da capacidade de interpretá-las com profundidade, discernimento e senso crítico.

A leitura, esse extraordinário instrumento de emancipação intelectual, vem sendo gradativamente substituída pela superficialidade dos conteúdos instantâneos, pela cultura da brevidade e pela ditadura da distração permanente.

O resultado dessa transformação revela-se alarmante.

Multiplicam-se os casos de analfabetismo funcional, fenômeno que representa uma das mais perversas contradições do sistema educacional contemporâneo. São cidadãos que aprenderam a decifrar letras, palavras e frases, mas que encontram enormes dificuldades para compreender textos, interpretar argumentos ou extrair conclusões consistentes das informações que recebem.

Em outras palavras, leem sem compreender. Observam sem interpretar. Recebem informações sem transformá-las em conhecimento.

As consequências desse processo são devastadoras.

Uma sociedade que lê pouco torna-se uma sociedade vulnerável. Vulnerável à manipulação ideológica. Vulnerável à desinformação. Vulnerável aos discursos simplistas que oferecem respostas fáceis para problemas complexos.

Quando a capacidade de compreensão declina, enfraquece-se igualmente a cidadania. O indivíduo passa a depender da interpretação de terceiros para compreender contratos, leis, notícias, propostas políticas e até mesmo as decisões que afetam diretamente sua própria vida.

Não há democracia sólida onde a compreensão crítica se torna privilégio de poucos.

Não há prosperidade duradoura onde o conhecimento deixa de ser valorizado.

Não há desenvolvimento econômico sustentável quando parcela significativa da população encontra dificuldades para interpretar informações básicas exigidas pelo mercado de trabalho contemporâneo.

É imperativo reconhecer que a formação de leitores não constitui responsabilidade exclusiva da escola. Trata-se de uma missão compartilhada entre famílias, educadores, instituições culturais e poder público.

Livros não podem ser tratados como objetos decorativos. Bibliotecas não podem ser encaradas como monumentos ao abandono. A leitura não pode ser reduzida a mera obrigação curricular.

Ler é expandir horizontes.

Ler é desenvolver a capacidade de questionar.

Ler é fortalecer a autonomia intelectual.

Ler é ampliar as fronteiras da liberdade humana.

As grandes nações não se tornaram grandes apenas pela força de suas economias ou pelo poder de suas indústrias. Tornaram-se grandes porque construíram sociedades capazes de pensar, criar, inovar e compreender.

O verdadeiro patrimônio de um país não está apenas em suas riquezas naturais nem em seus indicadores financeiros. Está, sobretudo, na qualidade intelectual de seu povo.

Ignorar o avanço do analfabetismo funcional significa comprometer o futuro nacional de forma silenciosa e cumulativa. Significa aceitar que gerações inteiras sejam privadas das ferramentas indispensáveis para exercer plenamente sua cidadania e alcançar seu potencial.

Que não nos falte, portanto, a lucidez necessária para compreender a gravidade deste desafio.

Porque uma nação que abandona os livros corre o risco de abandonar, simultaneamente, sua capacidade de compreender o presente e de construir o futuro.